quarta-feira, agosto 02, 2017

Sabiá com trevas


      SABIÁ COM TREVAS

       VI 

      Há quem receite a palavra ao ponto de osso, 
      de oco; ao ponto de ninguém e de nuvem. 
      Sou mais a palavra com febre, decaída, fodida, na 
      sarjeta. 
      Sou mais a palavra ao ponto de entulho. 
      Amo arrastar algumas no caco de vidro, 

      envergá-las pro chão, corrompê-las -
      Até que padeçam de mim e me sujem de branco. 
      Sonho exercer com elas o ofício de criado: 
      usá-las como quem usa brincos.

                                                                            


      Do livro: "Arranjos para Assobio".

sábado, julho 15, 2017

Palavras



Palavra dentro da qual estou há milhões
de anos é árvore.
Pedra também.
Eu tenho precedências para pedra.
Pássaro também.
Não posso ver nenhuma dessas palavras que
não leve um susto.
Andarilho também.
Não posso ver a palavra andarilho que
eu não tenha vontade de dormir debaixo
de uma árvore.
Que eu não tenha vontade de olhar com
espanto, de novo, aquele homem do saco
a passar como um rei de andrajos nos
arruados de minha aldeia.
E tem mais: as andorinhas,
pelo que sei, consideram os andarilhos
Como árvore.
 

Em: O fazedor de amanhecer

domingo, julho 09, 2017

PÊSSEGO


Proust
Só de ouvir a voz de Albertine entrava 
em orgasmo. Se diz que:
O olhar de voyeur tem condições de phalo 
(possui o que vê).
Mas é pelo tato 
Que a fonte do amor se abre.
Apalpar desabrocha o talo.
O tato é mais que o ver 
E mais que o ouvir
E mais que o cheirar.       
E pelo beijo que o amor se edifica.
É no calor da boca 
Que o alarme da carne grita.
E se abre docemente 
Como um pêssego de Deus.


(Poemas Ruprestes, In  Poesia Completa, São Paulo: Leya, 2010, p. 315)

sexta-feira, julho 07, 2017

(Des)vendo

Mostra Cultural inspirada no poeta Manoel de Barros Mansão das Heras



A Escola Pedra da Gávea convida todos para a Mostra Cultural 2017 com o projeto (Des)vendo o mundo pelo olhar de Manoel de Barros, o saudoso poeta pantaneiro conhecido por suas rimas cheias de profundidade sobre simplicidades do dia-a-dia e a sutileza das coisas “desimportantes”. A Mostra Cultural acontece neste sábado, dia 08 de julho, das 10h às 14h, na Mansão das Heras, no Alto da Boa Vista e, contará com diversas atividades ‘crianceiras’ inspiradas no poeta, como roda de música e caça ao tesouro na mata, além de exposição de fotografias e livros. Os ingressos para o evento custam R$20,00 e podem ser adquiridos nas secretarias de qualquer uma das unidades da Escola (Barrinha, Jardim Oceânico e Ipanema).
Classificação – Livre
Mansão das Heras
Estr. do Açude, 695 – Alto da Boa Vista
Tel.: 99851-2756Informações pelo telefone: 2494-0440
Sábado, 8 de Julho, das 10h às 14h
R$20,00

quinta-feira, julho 06, 2017

Poesia não serve para demonstrar nada...


"Parece que o poeta serve para desacomodar as palavras. Não deixar que as palavras se viciem no mesmo contexto. Usar as palavras para ampliar o mundo há de ser outro milagre da poesia. Celebrar moscas é um exemplo de como podemos ampliar o mundo. Uma das regras importantes da poesia é não ser demonstrativa. Poesia não presta para demonstrar nada. Ela só presta para dar néctar."   


MANOEL DE BARROS em entrevista "metapoética" a Douglas Diegues (DIEGUES, Douglas. 
 Silêncios, nadas e borboletas
Uma entrevista de Manoel de Barros a Douglas Diegues. Edição do autor, limitadíssima, s.d.

sábado, julho 01, 2017

Aprendimentos


O filósofo Kierkegaard me ensinou que cultura 
é o caminho que o homem percorre para se conhecer. 
Sócrates fez o seu caminho de cultura e ao fim 
falou que só sabia que não sabia de nada.
Não tinha as certezas científicas. Mas que aprendera coisas 
di-menor com a natureza. Aprendeu que as folhas 
das árvores servem para nos ensinar a cair sem 
alardes.
Disse que fosse ele caracol vegetado 
sobre pedras, ele iria gostar. Iria certamente 
aprender o idioma que as rãs falam com as águas 
e ia conversar com as rãs.
E gostasse mais de ensinar que a exuberância maior está nos insetos 
do que nas paisagens. Seu rosto tinha um lado de 
ave. Por isso ele podia conhecer todos os pássaros 
do mundo pelo coração de seus cantos. Estudara 
nos livros demais. Porém aprendia melhor no ver, 
no ouvir, no pegar, no provar e no cheirar
.
Chegou por vezes de alcançar o sotaque das origens. 
Se admirava de como um grilo sozinho, um só pequeno 
grilo, podia desmontar os silêncios de uma noite! 
Eu vivi antigamente com Sócrates, Platão, Aristóteles — 
esse pessoal
.
Eles falavam nas aulas: Quem se aproxima das origens se renova. 
Píndaro falava pra mim que usava todos os fósseis linguísticos que 
achava para renovar sua poesia
. Os mestres pregavam 
que o fascínio poético vem das raízes da fala.
Sócrates falava que as expressões mais eróticas 
são donzelas
. E que a Beleza se explica melhor 
por não haver razão nenhuma nela. O que mais eu sei 
sobre Sócrates é que ele viveu uma ascese de mosca.

segunda-feira, junho 26, 2017

Eu não vou perturbar a paz





De tarde um homem tem esperanças.

Está sozinho, possui um banco.
De tarde um homem sorri.
Se eu me sentasse a seu lado
Saberia de seus mistérios
Ouviria até sua respiração leve.
Se eu me sentasse a seu lado
Descobriria o sinistro
Ou doce alento de vida
Que move suas pernas e braços.

Mas, ah! eu não vou perturbar a paz que ele depôs na praça, quieto.


(Fáce Imóvel, 1942)